Quem já reuniu coragem o suficiente pra deixar tudo pra trás e embarcar (literalmente) numa aventura rumo ao desconhecido somente com a própria companhia sabe o que é duvidar de todas as escolhas feitas até o momento. Nem que a dúvida tenha durado 10 segundos. Isso aconteceu comigo quando eu decidi morar fora do Brasil.

Nunca vou esquecer da sensação de sentar no avião, já sozinha em São Paulo, e saber que apenas 12h me separavam de um continente completamente diferente e novo, e mais algumas horas de um país onde eu não conhecia ninguém, e pior, não sabia me comunicar na língua local. O primeiro pensamento que passou pela minha mente foi “o que eu to fazendo aqui?”.

Era a primeira vez que eu viajava para um país onde eu não conhecia o idioma e também a primeira vez que eu moraria num lugar diferente. O que me acalmou foi pensar que se eu tivesse que fazer as mesmas escolhas de novo, eu as faria sem pensar duas vezes. A partir desse momento, o medo se transformou num friozinho bom na barriga. Ah, se eu soubesse todos os altos e baixos e os momentos incríveis que eu teria a partir dali…

Morar fora é um aprendizado constante e eu vim aqui compartilhar algumas das coisas que eu aprendi nesse quase um ano fora do Brasil, tirando cozinhar sozinha (que ainda está em fase de desenvolvimento porque eu me queimo/corto toda semana) ou a influência louca que o Brasil sofre do capitalismo americano – porque isso duraria um post inteiro.

1. Abraçar a solidão

Parece meio melancólico falar isso, mas você aprende que no fim das contas está sozinho no mundo. E isso não necessariamente é algo negativo! É muito bom aprender a estar com você mesmo e não precisar de companhias. Independência é algo incrível! Mas devo dizer que não é um processo fácil caso você não esteja acostumado (como tudo na vida), eu sempre estive cercada de família, amigos, namorado, então foi bem desagradável o processo de me acostumar a ser “só”.

Agora eu vejo que foi algo muito importante, que me ajudou a crescer e a me conhecer de um jeito diferente. Nada como estar bem consigo mesmo, muda tudo o que você faz e como você enxerga o mundo – e também os outros.

2. A influência que o ambiente e as pessoas tem sobre nós

Quando você viaja pra um lugar novo para ter uma experiência longa, é incrível como você se abre para novas oportunidades. Parece que a gente vira criança de novo; uma esponja que absorve tudo. Você percebe que todas as pessoas que você conhece (sim, todas) vão te influenciar de alguma forma, e o mais louco de tudo: muitas vezes ela não terão a mínima ideia disso.

Manias, pensamentos, costumes que você vai levar consigo e incorporar no dia a dia sem perceber. E mesmo as ideias e ações que você não concorda te farão pensar e refletir, e talvez abrir um pouco a sua mente sobre diferentes assuntos.

 

3. Pessoas são apenas pessoas

Não importa de onde elas venham, você aprende que pessoas são apenas pessoas. Que aquela menina que veio da Rússia tem qualidades e defeitos como você. Assim como quem nasceu na Sérvia, Nova Zelândia, Nepal, Tunísia, Finlândia. Independente da crença, orientação sexual, visão política… A única coisa que difere vocês são as coordenadas geográficas de onde nasceram e toda a bagagem cultural que isso envolve.

Parece óbvio falando, mas é um processo complicado também. Morei com um menino da Tunísia por alguns meses e ele não podia falar com as irmãs porque o pai dele as proibia de falar com homens (sim, até com o irmão que morava na mesma casa). E aí você quer pirar e começar a terceira guerra mundial na mesa da cozinha enquanto faz o jantar mas tem que absorver a informação e mostrar seu ponto de vista e sua visão de mundo sem ofender ninguém, afinal foi o que ele cresceu vendo. No fim dá uma sensação boa quando a gente vê os horizontes das pessoas se expandindo, assim como o nosso.

4. O ser humano se adapta rapidamente

Um exemplo disso é morar numa republica com 5 outras pessoas, um banheiro e ainda por cima dividindo o quarto – o que não foi o ponto alto do meu intercâmbio. Com certeza não seria algo que eu estaria aberta a fazer se estivesse na minha cidade, infelizmente. É engraçado que você deve ter pensado a mesma coisa que todo mundo pensa quando eu falo “nossa, como? Eu nunca faria isso!”. Bom, quando essa é a sua única opção, ou digamos, a opção que deixaria você mais livre para viajar e ter um dinheiro extra no fim do mês, não parece ser mais um problema. Você se adapta. Não dá desse jeito? Então faremos de outro e a vida segue…

Claro que você tem que praticar a paciência todos os dias, todas as horas, porque a cozinha não se limpa sozinha e nem todo mundo tem os mesmos hábitos de limpeza que você – não mesmo. Mas é também divertido quando você tem os flatmates certos! Sempre tem alguém fazendo alguma comida diferente, nós geralmente fazíamos noites de determinado país e a pessoa cozinhava pra todo mundo. Quantas discussões encaloradas regadas a vinho a minha cozinha já não presenciou!

5. Amigos de amigos são nossos amigos também!

Sim, essa é velha mas é a maior verdade do mundo. E tem mais: os seus amigos em terras estrangeiras muito provavelmente não seriam seus amigos em sua cidade natal e isso é incrível! Quer dizer que você está saindo da zona de conforto até na hora de fazer amizades. Com pessoas que talvez não tenham os mesmos interesses e afinidades, mas estão ali pelo mesmo motivo que você: a curiosa vontade de pertencer ao mundo. E vocês passam pelas mesmas crises e situações juntos, que só quem já deixou tudo pra trás e veio viver fora sabe como é.

6. Nenhum lugar é perfeito

É aquela velha história, as pessoas tem a tendência de sempre achar a grama do vizinho mais verde. Você sai de casa rumo à um ~país de primeiro mundo~ buscando melhor qualidade de vida (no meu caso), vai morar na 4ª melhor cidade pra se morar do mundo e aí!? É legal? É. Quero ficar aqui pra sempre? Não. MAS COMO? Acho que eu aprendi que o mundo é muito grande pra gente viver num lugar só a vida inteira. Claro que pode acontecer de você se conectar com a cidade instantaneamente e ser tudo aquilo que sempre sonhou mas arrisco dizer que normalmente sempre vai ficar faltando algo.

Nessas voltas que a vida dá, fiz um amigo que acredita que todas as pessoas tem o “seu lugar perfeito no mundo”, onde tudo faria sentido e você se sentiria de verdade “em casa”. A cidade da sua vida. Achei um modo bonito de ver a vida, mas não sei se concordo… Pelo menos eu ainda não encontrei o meu.

 

7. Apreciar o lugar de onde eu vim

É engraçado porque um dos motivos de eu querer tanto viajar pra fora era minha vontade de querer voltar pra casa. E olha, até que aconteceu. Não do jeito que eu imaginava (e quando é né?!). Mas eu aprendi a gostar mais da minha cidade e do meu país. Quando nós vemos as situações e nossos antigos hábitos de uma perspectiva diferente, muita coisa deixa de fazer sentido e outras se tornam mais nítidas… Me lembrou as aulas de Antropologia da faculdade hehe.

A primeira vez que caiu a ficha foi quando expliquei pra alguém onde eu nasci e a pessoa ficou chocada que eu era numa ilha (Floripa, pra quem não sabe) hahaha e pra mim sempre foi tão normal… eu só pensava que não era tão bom assim porque o trânsito é um inferno e não tem pra onde expandir. Agora eu passei a ver com outros olhos e já estou contando os dias pra voltar (de turista no fim do verão, confesso).

8. Aproveitar a liberdade (e as oportunidades) que o mundo oferece

O que mais me marcou quando eu cheguei foram as conversas que eu tinha com as pessoas que eu acabava de conhecer e já estavam aqui há mais tempo que eu. Era sempre “ah eu gosto daqui mas não me vejo morando mais que cinco anos, quero ir pra outro lugar depois” ou “não me vejo morando no mesmo país por muito tempo nos próximos anos” e aquilo era tão fora da minha realidade. Eu achava tão linda essa liberdade toda.

Liberdade e confiança, pra mim elas andam de mãos dadas. Não dá pra aproveitar a liberdade se você não for auto confiante nas suas decisões, já que as pessoas sempre vão dizer que você está fazendo algo errado. Infelizmente.

Digo oportunidades, porque sempre aparece algo novo que a gente pensa “será?”, então meu lema durante todo o intercâmbio foi “se não agora, quando?” – adotei pra vida.

E agora, quase um ano depois eu me vejo pensando na mesma maneira que as pessoas que me inspiravam no começo, tenho esse mesmo sentimento de pertencimento ao mundo e não a um lugar em específico. Pelo menos não ainda. E o que eu mais quero é aproveitar essa liberdade e a chuva de oportunidades que uma vida nova oferece.

Logo eu estarei em outro lugar, fazendo outra coisa, aprendendo mais com cada pessoa que cruzar meu caminho e me conhecendo de jeitos que eu não imagino ainda. O primeiro passo é sempre o mais difícil, mas depois de tomado, não tem como você querer voltar atrás. E se tem algo que eu posso garantir depois dessa experiência é que a vida é linda quando a gente se permite sair da zona de conforto. Só depende de nós.